Pelo padre José Júlio Rocha

Hoje está uma humidade daquelas de cortar às fatias, com uma faca bem afiada. Um tempo de Leste que não traz nada que preste. Esses dias assim, viscosos, húmidos, tristemente cinzentos, com uma chuva peganhenta e eterna, põem a alma parda como o cinzento do dia. Já lá vão uns dias assim e, na próxima semana, adivinha-se tempo semelhante. Quase me revejo, no meio de tudo isso, nos primeiros versos do poema “Contrariedades”, de Cesário Verde:

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:

Tanta depravação nos usos, nos costumes!

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes

E os ângulos agudos.

Fora os três maços de cigarros, acerto em quase tudo.

Para ajudar à dança, a Rua do Palácio, que dá nome a esta rubrica, está sendo impiedosamente esventrada, escavacada, virada do avesso, mesmo em frente à janela do meu quarto. Os trabalhos deverão durar até abril, um calvário de retroescavadoras, pás, picaretas, martelos pneumáticos, os calceteiros que virão depois, pimba-pimba, horas a fio, a bater na pedra. Há de haver paciência, mas vai ser uma travessia custosa. As obras mudaram a configuração do trânsito e, agora, as voltas que tenho de dar para chegar ao seminário complicaram-se bastante. Ossos do ofício.

Vou contar-vos a aventura de uma viagem de automóvel, não em Los Angeles nem em Calcutá, mas da Praia até Angra.

Num dia destes, chovia como é costume, saí da Praia por volta das 16H30 e vim, a uma velocidade normal, atravessando o Mato, pela nossa Via Vitorino Nemésio, aquela via rápida de asfalto esquartejado e com pequenos buraquinhos – que vão crescer – e o carro num tum-tum-tum estrada fora. Em pouco tempo chego à famosa rotunda do Pico Redondo e não resisto à tentação de reparar se há mais alguma amolgadela nas barras laterais de metal, que envolvem a rotunda, tal é o número de acidentes que por lá acontecem: um perigo constante. Na Aníbal Bettencourt, ainda uns quinhentos metros antes da rotunda de São Rafael, começa a procissão. Uma enorme fila de carros engarrafa-se naquela hora de ponta. Dos quatro pontos cardeais, o trânsito converge a passo de caracol para aquela rotunda. Paciência atrás de paciência, lá chego à almejada rotunda e viro à direita, na Circular de Angra, a pensar que ela está cada vez mais raquítica, cada vez com mais trânsito, cada vez menos capaz de escoar os carros que vão e vêm da cidade. Já merecia uma nova configuração, uma maior largura, sobretudo nas impacientes horas de ponta. O caracol vai andando até à rotunda de Santa Luzia. Noutras alturas, eu virava para baixo, metia-me pelo bairro novo de Santa Luzia, descia a Miragaia e, num saltinho de pulga, estava ao portão do Seminário. Mas as obras na Miragaia puseram o trânsito direcionado para cima, na enésima tentativa de evitar canalizar ainda mais carros para a atolada Rua da Sé. O que acontece é que toda a gente que mora para aquelas bandas da zona antiga de Santa Luzia, em vez de virar pela Miragaia, dirige-se, sem outra solução, para a Madre de Deus e Alto das Covas. E aí o purgatório adensa-se.

Estou parado nos semáforos da Madre de Deus, junto ao Centro Cultural. Lá consigo descer, mas paro antes de chegar ao Alto das Covas. Os carros, nem para cima nem para baixo. Quem desce a Madre de Deus estaca porque o trânsito emperrou no Alto das Covas. Quem sobe a Madre de Deus esbarra nos carros parados na zona estreita e o sinal verde de nada serve. Ao Alto das Covas converge grande parte do trânsito que acorre à cidade. Reverter a direção do trânsito na Miragaia só agravou a situação.

Lá quando Deus quer, e no meio de apitadelas vindas de todos os lados, dou a volta ao passeio com o renque de árvores do Alto das Covas (que muitos pensam ser uma espécie de rotunda) e começo a descer a Rua da Sé: o purgatório continua… conto seis carros estacionados até ao pé da Rua da Palha. O trânsito da Rua da Sé, já de si muito, torna-se impossível com estes estacionamentos abusivos, sobretudo junto às farmácias. Descer ou subir a principal artéria da nossa cidade em hora de ponta é obra! Chegado ao pé dos Correios… paciência, não posso virar à esquerda, estrada cortada pelas obras na Rua do Palácio. Desço até à Praça Velha, não posso virar lá porque o palco me impede, e lá vou eu, Rua do Galo acima, virar no Largo do Cruzeiro, e oferecer ao meu carro o último sacrifício da viagem: descer aquela cascata de pedras soltas que é a Ladeira de São Francisco para, finalmente, virar para o Jardim, Rua do Rego e casa… Ufa!

Vinte minutos da Praia até à Rua Aníbal Bettencourt. Vinte e cinco daí até casa. Numa cidade de 13 mil habitantes, parece-me que é muito.

Com a configuração viária do centro da nossa velha cidade, convenhamos que não há soluções fáceis. Nem estou a fazer críticas a ninguém, apenas a constatar uma experiência comum a muitos cidadãos.

A condução na nossa terra tem algumas particularidades, uma das quais é a de muitos condutores já nem se lembrarem que os automóveis têm “pisca”. Outra experiência nada agradável é atravessar a nossa via rápida num dia de nevoeiro denso. O número de automóveis que não acende o farol de nevoeiro, ou mesmo não acende qualquer luz, é perigosamente assustador. Ainda no outro dia, nevoeiro denso, tive que fazer uma travagem desesperada em plena via rápida, porque um volumoso BMW, com as luzes apagadas, estava a fazer recuo porque passou a entrada para a zona industrial!

Condutor sofre…