Por Carmo Rodeia

O mês de agosto já lá vai e a agitação da vida quotidiana começa a regressar ao ritmo normal anual com reuniões, notícias, aulas, conferências e “sabe-se lá amanhã o que virá” como no verso do Fado de Amália.

“O preciso é ser-se forte// Ser-se forte e não ter medo// Eis porque às vezes a sorte// Como a morte// Chega sempre tarde ou cedo// Ninguém foge ao seu destino// Nem para o que está guardado// Pois por um condão divino// Há quem nasça pequenino// Pr’a cumprir um grande fado” prossegue este poema cantado pela diva portuguesa que sempre serve de baliza ao nosso quotidiano agitado.

Para trás ficam dias de intensa preguiça, de abandono ao tempo como quem tem todo o tempo do mundo para celebrar, conviver, dialogar, disfrutar, ler, segredar ou simplesmente partilhar vida.

As férias são isto. Sobretudo isto: boa companhia, disponibilidade e encontro. A família e os amigos compõem o resto dos dias distendidos, entre leituras e um bom banho de mar, ciente de que “a hora do encontro é também de despedida” como na canção de Milton do Nascimento. Mas é uma despedida de esperança, que apesar da tristeza momentânea não se compara à desesperança criada por este inicio de setembro.

Já comprei e folheei o novo romance de Paul Auster. Ainda não o li mas não resisto a pedir-lhe de empréstimo o seu título: ‘4 3 2 1’ . Parece-me adequado para caracterizar o suspense em que vivemos diariamente, enquanto assistimos a esta espécie de “contagem decrescente” para um “conflito nuclear”, expressão que poderíamos julgar caída em desuso mas que readquiriu uma inesperada atualidade, com a tensão crescente entre os EUA e a Coreia do Norte .

O assunto deu origem a uma reunião (a segunda, no espaço de uma semana) do Conselho de Segurança da ONU, depois dos sucessivos testes nucleares por parte de Pyongyang, e não há site informativo que não chame à “primeira página” esta escalada que ninguém sabe se/quando e onde vai parar.

Nikki Haley, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas recorreu a uma sugestiva metáfora para confirmar que os esforços diplomáticos não estão a resultar: “Andamos a pontapear a lata há tempo demais pela estrada abaixo; agora já não há mais estrada”.

Os últimos desenvolvimentos da crise na Coreia do Norte não nos podem deixar indiferentes porque esta crise é diferente e mais séria do que todas as outras na região e corremos mesmo riscos.

O embaixador da Coreia do Norte em Madrid, em declarações à rádio portuguesa TSF,  acusou os EUA de estarem a fazer “exercícios militares de guerra” e que estes não podem ser ignorados pelos norte coreanos que irão responder “proporcionalmente”, o que quer que isso signifique. E, por fim, fez uma declaração que é tudo menos tranquilizadora: “Isto é apenas um assunto entre nós e os Estados Unidos”. E este é o problema principal: a combinação de duas doutrinas ofensivas, que é assim uma espécie de receita para um eventual desastre.

40 anos de `guerra fria´ mostraram que é preciso nervos de aço para lidar com armas nucleares que só serão úteis se nunca forem usadas. Como dizem alguns entendidos, hoje os jogos de guerra nesta parte do globo são tão graves e complexos como a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. Não espero contenção de um tirano maníaco, que `escraviza´e domina o seu povo, de forma absolutamente indiferente e insensível ao sofrimento humano. Mas será que podemos confiar nos impulsos e inconstâncias de Donald Trump?

Afinal, tenho medo dos erros e das tentações… de quem nasce pequenino, para cumprir um grande fado.