As comissões, mordomos e irmandades dos impérios foram unânimes em aprovar o adiamento das celebrações do Espírito Santo para o próximo ano, mantendo os domingos como estão.

As festas do Divino Espírito Santo na ouvidoria da Praia, na ilha Terceira, voltam a ser adiadas este ano por causa da pandemia. A decisão foi tomada esta noite, numa reunião que decorreu no Centro Pastoral das Fontinhas e que juntou o clero da ouvidoria com mordomos, comissões e irmandades de 20 impérios do Concelho da Praia da Vitória e o Diretor Regional da Saúde, Berto Cabral.

“Tendo em conta a possibilidade não descartável de um agravamento da situação pandémica na Ilha Terceira, era urgente essa reunião, para evitar que se gorassem expetativas e se despendesse dinheiro na preparação de festas que não aconteceriam” informa uma nota da ouvidoria enviada ao Igreja Açores esta quarta-feira que confirma a decisão de “não se celebrar publicamente nenhuma função do Espírito Santo”.

“As comissões, mordomos e irmandades dos impérios foram unânimes em aprovar o adiamento das celebrações do Espírito Santo para o próximo ano, mantendo os domingos como estão” refere a nota, sublinhando que apesar deste constrangimento pode manter-se o fundamental desta festa.

“Podem-se dar esmolas de carne, pão ou vinho, desde que entregues ao domicílio e evitando aglomerados de pessoas”. Além disso, “as pessoas podem ter a coroa em casa e rezar ao Espírito Santo em família, evitando aglomerados de amigos, vizinhos ou outras famílias”, refere-se ainda.

A ouvidoria da Praia insiste nas questões sanitárias e junta a sua voz à das autoridades de saúde desaconselhando “vivamente quaisquer aglomerados de pessoas” e deixa, por outro lado, algumas orientações.

“Se algum imperador quiser coroar, não pode fazer cortejo, deve evitar convidar pessoas que ponham em causa as restrições ao número de presentes na igreja, nem pode fazer função ou almoço que aglomere pessoas”, conclui a nota.

É o segundo ano consecutivo que não se celebram as festas do Espirito Santo nesta ouvidoria por causa da pandemia do covid-19.

Na ilha Terceira, as festas em honra da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade têm uma força “muito original” e são vividas sobretudo na zona do Ramo Grande (ouvidoria da Praia), onde a economia continua a ser predominantemente agrária, sendo bastante conhecidos, por exemplo, os impérios da Vila Nova e das Lajes pelo número de pessoas envolvidas.

A capacidade de inculturação numa cultura agrária explica, de resto,  a sua permanência tão viva nos Açores: a valorização da terra de onde vem o trigo e o milho a partir dos quais se faz o pão,  o vinho e a carne, aspetos nos quais se  materializam os dons do Espirito Santo.

A peculiaridade principal deste culto no arquipélago é ser popular e desenvolver-se sob a forma de império, com uma uma forte carga profética e política, sem qualquer pretensão de imitação de papéis ou destituição de poderes.

À volta dos Impérios desenvolvem-se durante vários dias as festividades do Espírito Santo, imbuídas de um ideal caritativo e compostas por um conjunto de cerimónias religiosas e profanas: a “coroação” do Imperador Menino, o desfile de cortejos e o bodo de pão e de carne.

Durante cada semana das festividades veneram-se as insígnias do Divino na casa do Imperador e reza-se o terço à noite perante a coroa e a bandeira. Na sexta-feira, os bois são enfeitados e realiza-se a “procissão do vitelo”. Posteriormente, sacrificam-se os animais necessários para o bodo que o Imperador oferecerá no domingo aos convidados, retalha-se a carne para a sopa, o cozido e a alcatra do jantar e para as pensões a distribuir pelos pobres da freguesia. No sábado faz-se a distribuição de esmolas, compostas de carne, pão e vinho, benzidas pelo sacerdote.

No domingo de manhã realiza-se a primeira procissão, encabeçada pela bandeira do Espírito Santo. Na cerimónia da “coroação”, dentro da igreja,  o padre toma o cetro, dá-o a beijar a quem coroa e entrega-lho, e depois faz o mesmo com a coroa, colocando-a sobre a sua cabeça; asperge o Imperador, incensa-o e entoa-se o “Veni Creator Espiritus”. Depois da coroação a Coroa e a Bandeira vão em procissão até ao Império, de onde saem à noite para outra casa.

As festas do Espírito Santo começam no domingo imediatamente a seguir à Páscoa tendo como ponto alto o domingo de Pentecostes e o da Trindade, conhecidos na Terceira como os `domingos do bodo´, talvez os mais importantes da ilha.

Na ilha Terceira, o culto do Espírito Santo está documentado desde 1492, data em que já se fazia o Império e se distribuía o bodo, no dia de Pentecostes, à porta de uma capela pertencente ao hospital do Espírito Santo.

Este ano, pelo segundo ano consecutivo, as Irmandades e comissões de festas decidiram adiara, uma vez mais as celebrações públicas por causa das questões sanitárias.