0Terceiro ano da Caminhada Sinodal termina com a certeza de que a pandemia adiou mais uma vez a saída dos ranchos de romeiros na próxima Quaresma

A pandemia e a saída do bispo de Angra para Viana do Castelo marcaram o ano da diocese de Angra privada entre janeiro e abril de celebrações de culto público  na ilha de São Miguel e desde setembro em sede vacante.

No terceiro ano da caminhada sinodal, a diocese de Angra vive um dos seus momentos mais exclusivos, sendo dirigida por um Administrador Diocesano eleito pelo Colégio de Consultores no passado dia 30 de novembro.

A pandemia afectou a vida diocesana sobretudo na primeira metade do ano com duas ouvidorias – Ribeira Grande e Vila Franca-com paróquias em cerca sanitária e sem culto público. No entanto, e ao contrário do que aconteceu em 2020, a participação dos cristãos nas celebrações ainda que com algumas restrições- uso obrigatório de máscara, distanciamento físico e higienização de mãos e de espaços- não foram proibidas em todas as ilhas, apenas nalgumas zonas da ilha de São Miguel, onde o número de casos de infecção por covid-19 disparou.

Ainda assim, as principais  festas religiosas do arquipélago- Espirito Santo e Santo Cristo– não se realizaram nos moldes habituais. As restrições levaram a que os decisores optassem por fazer uma celebração contida e circunscrita à Igreja, sem as habituais procissões e arraiais.

A saída de D. João Lavrador para a diocese de Viana do Castelo, ao fim de seis anos de episcopado, cinco dos quais como bispo titular da diocese, foi um dos marcos deste ano que agora termina. Pela primeira vez em mais de meio século, a diocese ficou sem bispo titular situação que marcou o Natal e o próprio arranque do novo ano pastoral.

O prelado, natural de Seixo de Mira, e que foi o 39º bispo de Angra, saíu em setembro. Também no inicio do verão tinha saída já da diocese mais uma congregação religiosa. As Irmãs de Maria Imaculada, que estiveram no Santuário do Senhor Santo Cristo  durante quase meio século, deixaram a diocese.

O bispo emérito de Angra, D. António de Sousa Braga, assinalava entretanto 25 anos de ordenação episcopal. Durante duas décadas foi o bispo titular de Angra, o 38º na história de 487 anos de diocese e o segundo açoriano.

Neste ano que agora termina destaque para o Seminário que ordenou três novos sacerdotes,- António Santos, João Silva e Jorge Sousa–  mas viu o ano letivo começar sem novos candidatos, o que aconteceu pela primeira vez em quase uma década. Ainda assim, a instituição, que sempre foi muito acarinhada por D. João Lavrador, iniciou um novo curso para candidatos ao diaconado permanente e que é frequentado por 8 alunos. O Seminário ganhou também um novo doutor em Sagrada Escritura, o padre Teodoro Medeiros.

O ano que agora finda ficou marcado pela morte de cinco sacerdotes influentes em São Miguel  e no Faial: um, o padre António Cassiano, por ter dirigido o único jornal propriedade de uma paróquia na principal ilha do Arquipélago; outro, padre Octávio Medeiros, por ter sido um homem da cultura ligado à Academia açoriana onde foi professor de Sociologia tendo coordenado vários estudos. Com o desaparecimento destes dois presbíteros perdeu-se uma forma de atuação em Igreja marcadamente ideológica, com um forte pendor social. O terceiro sacerdote, o padre José Alvernaz, natural do Salão, na ilha do Faial, ficou conhecido pela grande disponibilidade para servir as suas comunidades com simplicidade e humildade, sempre muito atento à juventude. Este ano, faleceram igualmente o padre Jorge Reis, antigo reitor do Seminário de Angra, vitima de covid-19 e o padre Agostinho Barreiro, da Fazenda do Nordeste.

Neste ano tão marcado pela pandemia há uma nota muito significativa e que se prende com a perda de vitalidade dos movimentos de apostolado, sobretudo os que ao longo da história foram vitais para a dinamização da vida comunitária da Igreja como o Movimento dos Cursilhos de Cristandade, as Equipas de Nossa Senhora e o Renovamento Carismático. Também pelo segundo ano consecutivo as romarias quaresmais de São Miguel não saíram à rua.

A Jornada Mundial de Juventude foi celebrada, pela primeira vez, no Domingo de Cristo Rei e na Terceira, concretamente em São Mateus e na Fonte Bastardo, e foi a primeira grande oportunidade para mais de duas centenas de jovens se reencontrarem. Em São Miguel reuniu-se o Comité Local organizador da Jornada Mundial de Lisboa com os vários comités locais diocesanos.

A diocese voltou a não reunir o Conselho Presbiteral de forma presencial, embora esteja no seu terceiro ano da caminhada sinodal tendo procurado adequar esta estratégia local com o sínodo proposto pelo Papa Francisco a toda a Igreja no mundo.

Este foi igualmente o ano em que os Açores ganharam um novo Museu de Arte Sacra, o primeiro da região e que é presidido pelo padre Marco Luciano Carvalho, ouvidor da ilha do Faial, e um dos principais promotores da homenagem feita ao Cardeal José da Costa Nunes, por ocasião do centenário da sua ordenação episcopal a 20 de novembro deste ano.

Também este ano houve desenvolvimentos na fase diocesana do processo de beatificação da terceirense Maria Vieira, com o postulador da causa a garantir que está tudo concluído para que o novo bispo de Angra possa enviar o processo para Roma.

O ano fica, igualmente marcado, pelo regresso das Jornadas de Teologia, promovidas pelo Seminário em ambiente zoom, e pela catequese desenvolvida à distância. A comissão de proteção e acompanhamento de crianças e jovens vitimas de abusos de elementos da Igreja voltou a reunir de forma presencial no final deste ano para definir metodologias de trabalho e metas a alcançar.

O inverno demográfico chegou igualmente aos Açores, que registaram uma perda assinalável de população. Apenas o concelho da Madalena do Pico viu reforçado o número de residentes; todos os demais perderam população.

O Instituto Católico de Cultura aproveito o tempo de pandemia para promover, em parceria com a RTP Açores, três debates sobre os documentos estratégicos e transversais do pontificado do papa Francisco: as encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti e também as orientações sobre a Economia de Francisco, reunindo especialistas nacionais e regionais. O mesmo aconteceu com a ouvidoria da Praia que promoveu a escola de formação cristã sobre a Laudato si e as propostas para uma fé centrada na Ecologia.

Ainda que de forma tímida, por causa da pandemia, a diocese assinalou o 30º aniversário da visita do Papa São João Paulo II aos Açores, a 11 de maio de 1991, na única visita pontifícia ao arquipélago.